Há alguns anos atrás, eu estava sentada na sala de espera do meu médico, folheando uma revista ao acaso. Deparei-me com um artigo que se tornou importante e inesquecível na minha vida. O assunto, em si, era banal: uma leitora da revista perguntava ao psiquiatra Paulo Gaudêncio a respeito da difícil decisão que ela teria de tomar. A resposta, no entanto, foi de um brilhantismo, que passei a ser fã desse médico/psicanalista, desde então.
Eis a resposta:
"O que você está me perguntando é: "Como faço para me arriscar sem correr riscos?"
Há anos vejo pacientes meus procurarem um jeito de realizar essa proeza e torço para que um encontre a fórmula. Aí vou poder usá-la também. Porém, duvido que alguém ache.
Quando o espanhol Hernán Cortés invadiu o México, no século 16, se deparou com ouro demais e astecas demais. Com poucos soldados, botou fogo nas caravelas para que ninguém pudesse voltar e introduziu o estilo ou-dá-ou-desce na história. Empreendeu a conquista mais sangrenta da humanidade, uma barbaridade. Mas, quando fazemos uma opção na vida, é um pouco assim: temos que queimar simbolicamente as caravelas. Pelo visto, você preferia deixar um barquinho escondido atrás da moita..." (Paulo Gaudêncio/ Revista Nova)Correr riscos faz parte da vida.
Arriscamos quando nos apaixonamos - e se a pessoa amada nos ferir, o amor acabar?
Arriscamos quando escolhemos uma carreira que nos ocupará durante anos de estudo - e se não for isso que eu quero fazer da vida?
Arriscamos nas escolhas dos amigos, na decisão de ter filhos (ou não), nas mudanças que promovemos internamente. E, na maioria das vezes, não há como voltar atrás, não existe um barquinho atrás das moitas, não podemos mais voltar para o conforto do passado.
Todos nós, cedo ou tarde, passaremos por essa experiência vivida pelos soldados espanhóis - de um lado, astecas dispostos a matar ou morrer para defender seu povo, de outro, as caravelas queimando no mar, descartando qualquer possibilidade de fuga. Nada mais resta a não ser gritar:
- Agora fod*#@u !!
E agarrar a espada com fé e vontade.
